Nota

Sofro de um mal não permitido pelo século XXI. Na verdade, tenho dúvidas sobre sua procedência: não se é doença, não sei se é arte do tempo ou coisa intrínseca a mim. Coisa boa nem má, na minha opinião (pensando bem deve ser má…) O caso é que eu literalmente me calei. Observo, não falo. Emudeci. Mudei. Enegreci. Não gritei. Diante do impasse eu apenas me calei.

Nota sobre a fala

Anúncios

O dinamismo do transporte público limeño

Padrão

Meus caros, faz um tempão que quero escrever sobre essa coisa pra lá de curiosa que é o sistema de transporte limenho – e por extensão, o sistema de transporte peruano (ao menos das cidades por onde estive). Queria escrever sobre isso porque a primeira coisa que me chocou quando cheguei em Lima foi justamente o transporte em geral. Via carros particulares e ônibus caindo aos pedaços; motoristas que se pudessem, passavam uns por cima dos outros; – muitas vezes que estava num táxi ou num ônibus, fechava os olhos pra minha morte ser menos dolorosa e pra me despedir da vida rs – buzinas sendo acionadas até para pedir passagem às pombas da praça e uma gritaria de destinos que me ensurdecia. Mas depois você comparte a dinâmica da coisa e quando vê, já está cantando todas as músicas que tocam no “busão” (às vezes numa altura ensurdecedora) e gritando “¡Baja Cruz!” (Desce Cruz!)

Em Lima há três tamanhos de ônibus e seus inúmeros estados de conservação: existe o grande novo; o grande um pouco usado e o grande dos tempos do Faraó; os medianos geralmente são beeeeem acabados e fazem os trajetos mais lotados; e por ultimo, os pequenos (Kombis) que são por lei velhos e desconfortáveis – existem uns que eu (pasmem!) não consigo ficar de pé, ereta!

Você pára em qualquer lugar da rua que saiba que passa a linha que você vai tomar, literalmente em qualquer lugar. Faz o sinal por motorista parar ali mesmo onde está e sobe. Já dentro do ônibus, não há catracas ou cobradores que ficam em lugares fixos do ônibus: aqui, o cobrador passa pelas pessoas e não vice-versa. E cobram a passagem de acordo com o trajeto que cada pessoa fará! É uma loucura! Sempre penso na habilidade que eles têm para recordar quais as pessoas que já pagaram, quais ainda faltam cobrar, quais os trajetos que cada um falou para não lhes passarem a perna. E posso garantir que sim, se lembram de cada detalhe.

Poderia, mas sua tarefa não se resume à cobrança das passagens: ainda têm que divulgar no gogó os trajetos que o ônibus fará – “¡Plaza! ¡Plaza! ¡Universitaria!” – e avisar ao motorista quando alguém pede pra descer (vulgo a cada minuto, porque aqui literalmente te deixam na porta de casa). Daí tem uma história engraçada.

Ainda nos primeiros dias que estava em Lima, saímos para conhecer a cidade. O ônibus bastante lotado, chega o ponto onde devemos descer. Eu desço por último, atravessando o mar de gente que ocupa cada centímetro do veículo. O cobrador, da outra extremidade do veículo: “¡Baja! ¡Baja!  ¡Baja!  ¡Baja!  ¡Baja!  ¡Baja!”. O desgraçado não parava de gritar “desce”. “Tô descendo, CARALHO!”. E as meninas com quem eu estava, MUITO constrangidas: “Oye, Flávia. Quando ele diz “baja” é pra avisar o motorista que não é pra seguir porque tem gente descendo… não é pra você!”

Para entender melhor do que estou falando fiz alguns vídeos de duas perspectivas diferentes. Vejam! (Mas burra que sou não consigo carregá-los por aqui. Postarei no Facebook).

Atenção: Eu sou você

Padrão

Por que defender os direitos dos homossexuais se você não é não gay? Hoje, dia 30 de junho de 2012, aconteceu a “marcha del orgullo” em Lima, que ocupou as principais ruas do centro cidade durante um horário que costuma ser de grande movimentação de carros e pessoas por aquela região. O ponto de chegada foi a Plaza San Martín, só não mais representativa que a Plaza de Armas. A Plaza de Armas é um caso a parte: centro político-administrativo simbólico do Peru desde tempos remotos, é um espaço no qual estão proibidos quaisquer tipos de protestos e manifestações – e assim é a democracia burguesa: “Te deixo pensar que é livre, te deixo se sentir livre, mas ai de você se chegar à conclusão que não é livre e querer compartilhar sua descoberta com os demais!”.

Desde que cheguei ao Peru não havia visto nenhum casal homossexual. Perguntei pra uma peruana, mui ingênua e tonta que sou, se não havia gays no Peru. “Claro que existe. Existe um monte!”. Estou acostumada com o ambiente universitário brasileiro e claro que não havia reparado que aqui a demonstração de carinho em público (e não importa muito o público) não acontece ou é muito rara. Hoje eu via estampada na cara dos manifestantes a alegria de poder mostrar sua escolha, de poder mostrar que amam e que amar não é errado, não é pecado, não é doença, não é crime. Por que não fazer? Por que esconder? Por que se calar diante da injustiça? Do outro lado da rua, uma senhora gritava indignada, ao lado de gente com cara com espanto, que a apoiava sem precisar abrir a boca: “¡Ustedes son la basura de la sociedad!” (Vocês são o lixo da sociedade).

———————–

Em Lima, sinto-me agredida todas as vezes em que ponho o pé na rua. Não me sinto, EU SOU agredida todas as vezes que ponho o pé na rua! Já não olho diretamente para a cara das pessoas, com medo de me olharem com cara nojenta, chegarem mais perto e balbuciar: “¡Preciosa!”, “¡Rica!” (gostosa), “¡Hermosa!”, “¡Muñeca!” e já não sei que tantas outras coisas mais. Medo de fazerem um som de prazer quando me veem passar, medo de que me olhem com cara de nojenta de cima a baixo. É tão humilhante…

Violência não é só um ato físico. Teu machismo me viola.

———————–

Machismo, homofobia, xenofobia, racismo, especismo … são farinha do mesmo saco.

Se eu defendo os direitos dos homossexuais é porque eu defendo meu direito de ser mulher, é porque eu exijo ser tratada como qualquer ser humano, eu exijo meu direito de falar e não ser calada, eu exijo que os animais não sejam tratados como objeto, eu exijo ir tentar a vida em outro país e não ser taxada como criminosa por isso, eu exijo que o meu valor supere o valor do dinheiro, eu exijo viver num mundo outro. Eu sou o morador de rua que não irá mais comer a noite, porque a comida que me alimenta “emporcalha” a cidade. Eu tenho um irmão gêmeo que foi assassinado porque andávamos abraçados na rua.

Ayacucho, Rincón de la memoria

Padrão

Ayacucho, traduzido do quéchua para o castelhano, significa “Rincón de los Muertos” – o que em português seria, cantinho/esconderijo dos mortos. Cidade colonial no centro-sul do Peru, Ayacucho (ou mais corretamente, Huamanga) é conhecida em todo país pela comemoração fervorosa da Semana Santa, – também pudera: tem 37 igrejas – por ser a cidade onde foi proclamada a independência do país, em 1824 e, infelizmente, porque foi bastante castigada pelo período de violência política conhecido como Sendero Luminoso, de 1980 a 2000.
Especulei por aí que no auge do conflito Ayacucho tornou-se uma cidade-fantasma e agora, aos poucos, as pessoas voltam aos seus lares – marcadas ainda pelo estigma do passado. Soube, também por conversas informais, que atualmente os ayacuchanos se auto-dividem entre aqueles que foram afetados direta ou indiretamente pela guerrilha maoísta e entre os que tinham alguma ligação ou eram senderistas; isso porque há alguns anos atrás, o governo peruano beneficiou em dinheiro somente as pessoas que ele supunha serem afetadas pelos senderistas, o que criou uma cisão concreta entre a população de Ayacucho até hoje.
Para ficar um pouco mais claro, vou fazer um curto apêndice no final para expor em linhas gerais o que foi esse conflito, tão presente na memória coletiva peruana (como a ditadura militar é para os brasileiros).

Estava meio sonolenta e tonta com tanto zigue-zague da estrada, mas não pude deixar de desgrudar o olho da janela: a cidade, embaixo, toda iluminada pelos postes de luz e rodeada por inteiro por uma cadeia imponente de montanhas; e o sol da manhãzinha, aos pouquinhos despontando, aos pouquinhos me revelando a paisagem, como quem diz: “devagar é mais gostoso, tonta!”. Ainda de mochila nas costas, procurar um lugar para pernoitar ficou para segundo plano: não queria perder a magia da cidade amanhecendo, ainda deserta. Huamanga lembra as cidades históricas de Minas Gerais.

Uma hora depois, as ruas já estavam repletas de gente e de comércio. Ali, como em todos os lados que já visitei do Peru, o comércio informal é o aspecto que de longe chama atenção. A cada esquina, a cada canto, há pessoas vendendo toda sorte de miudezas, frutas, “porcariadas” (que segundo a minha mãe são chocolates, bolachas, balas, pirulitos, etc), comidas e bebidas típicas, roupas, celulares, entre muitas outras coisas vendíveis. O sorvete ayacuchano é um exemplo de comida típica que as cholas – assim se chamam as mulheres andinas – vendiam na rua: colocam o conteúdo numa panela e, como num banho Maria ao contrário (com gelo), começam a girar a panela até o sorvete ganhar forma e endurecer. É gostoso.

Aspecto muito interessante de Huamanga também é a língua, pois que em toda região falam quéchua; algumas pessoas não falam o espanhol e o normal é que conversem em castelhano somente com quem presumam não entender o quéchua, como os “gringos”. O melhor lugar para ouvir conversarem em quéchua era nas kombis, em trajetos que saíam dos perímetros urbanos. E o melhor lugar para sentir que estavam rindo muito da sua cara era nas feirinhas de artesanato e nas tendas de comida, depois da clássica pergunta “Você não vende nada que não leve carne?”.

Estava nos Andes justo no período das festas de “San Juan”, vulgo São João, comemoradas em toda a Serra. Caminhando pela cidade, pude observar a preparação para a festividade: todas as lojas de fogos de artifício estavam de vento em polpa na confecção de fogos de artifícios em forma, principalmente, de animais. Não pude ficar pro estouro dos fogos, que seria a noite, mas sem estourar já estavam uma obra de arte. A festa sim, acompanhei. Música, comida típica e pau de sebo, como no Brasil. Uma menininha acercou de mim e da Renata, “De que país vocês são?”, desde então grudou como carrapato e logo nos ganhou. Ela estava eufórica para subir no “palo ensebado” e tentar ganhar o prêmio de 200 soles e no fim das contas, acabou convencendo a Renata a tentar a façanha também. Huamanga me fez lembrar minhas raízes de interior: gente simples, carinhosa, conversadeira e perguntadeira, que não te deixa ir de um lugar sem ter conversado ao menos sobre o clima (“Nossa, tá com uma cara de que vai chover, né?!”). Começo de conversa, que na versão peruana é: “De onde você vem?”.

Não pude deixar de lamentar como um paraíso desses pôde ser tão castigado anos atrás… Durante minha estadia, visitei o museu em memória às vítimas do período de violência, visitei a Universidad Nacional de San Crsitóbal de Huamanga, considerada berço ideológico do Sendero Luminoso – lugar onde inclusive o líder do Sendero, Abimael Guzmán, lecionou filosofia nos anos 70 – e fui a um julgamento aberto ao público, em que os crimes cometidos pelo Estado estavam sendo julgados. Na universidade, não vi nada que remetesse ao Sendero. No museu, histórias macabras de crimes brutais cometidos tanto por senderistas, quanto pelo Estado; ali também, obras de arte popular que remetiam à violência e histórias de mulheres guerreiras que se uniram para descobrir o paradeiro de seus filhos, até hoje “desaparecidos”. No julgamento, o relato da dor: uma senhora já com idade avançada, quéchua-hablante, sentou-se diante dos juízes e com o auxilio de uma tradutora, descreveu como seus dois filhos foram levados pelos militares e como nunca mais os viu. Não acompanhei o julgamento inteiro e soube depois da importância dele; muitas pessoas já haviam relatado sobre o período de violência, sobretudo na Comissão da Verdade e Reconciliação (criada em 2001), mas, para muitos dos depoentes ali presentes, aquela era a primeira vez que vinham a público denunciar sua experiência. Durante o tempo que estive ali, tirei umas fotos e escondida, gravei dois vídeos para ter o registro oral do julgamento, que infelizmente não captaram o som.  

 

Do andar de baixo para cima: representação do perído pré, durante e pós Sendero Lumino

Apêndice
Sendero Luminoso é a guerrilha surgida no início dos anos 80 justo na zona andina peruana de Ayacucho, segunda região mais pobre do Peru na época. A guerrilha nasceu no bojo do partido político Sendero Luminoso, – uma cisão do Partido Comunista – criado em 1971, de orientação maoísta e cujo líder era Abimael Guzmán (o famoso Presidente Gonzalo). O Sendero, a partir de uma auto-interpretação da realidade peruana, trouxe para si a tarefa de destruir o “feudalismo” e o “capitalismo burocrático” apoiado pelo imperialismo, para assim construir o “Estado de Nova Democracia” no Peru. A guerrilha deu início às suas atividades em abril de 1980 e no começo, o tipo de ação desenvolvida com maior regularidade era o ataque a postos policiais nas cidades do Estado de Ayacucho, Apurimac e Huancavelica ou ataques sistemáticos a agentes isolados (para apropriação de seus armamentos), em Lima ou nas grandes cidades em geral. No dia 26 de março de 1982, o Sendero Luminoso dinamitou pela primeira vez linhas de alta tensão em Lima, o que provocou corte de eletricidade na capital; esse tipo de ação se tornaria muito freqüente ao longo da década, tanto ali, quanto em outras cidades como Arequipa ou Cuzco, lugares onde ele não estava necessariamente implantado.
No ano de 1983, o governo peruano lançou uma ofensiva militar às comunidades em que o Sendero estava mais presente – províncias do Estado de Ayacucho-, fazendo com que o grupo transferisse seu centro de operações para as provinciais de Huanta e La Mar e para a zona de altos vales da vertente amazônica; dessa nova região, executou medidas punitivas às comunidades que colaboraram com os militares. Nessa época o governo intensifica as ofensivas contra o Sendero, ao mesmo tempo em que a guerrilha estende suas operações a todo Peru. A dimensão desse derramamento de sangue pode ser acompanhada pela “estratégia de terror” (“estratégia de sessenta por três”) usada pelo governo para combater os guerrilheiros, em 1983, de acordo com o então ministro da guerra: “Porque eles têm as mesmas características dos habitantes da serra, será preciso matar sessenta pessoas para eliminar três senderistas e dizer evidentemente que eram sessenta senderistas”. No final das contas, a população ficou num fogo-cruzado sangrento e sem precedentes entre os senderistas e o governo: os senderistas matavam todos que supunham pertencer às forças estatais e o governo matava também indiscriminadamente quem desconfiavam ser guerrilheiros.
Em abril de 1992, Fujimori deu o denominado autogolpe de Estado, ao dissolver o Congresso, suspender a Constituição, reorganizar o poder judiciário e instaurar o Governo de Emergência e Reconstituição Nacional, cuja meta era a de eliminar a guerrilha. A justificativa para o autogolpe era a de que o governo necessitava de aprovação no Congresso para fazer sua Reforma do Estado e havia disputas e tensão entre Legislativo e Executivo; além disso, a guerrilha, que estava ocupando cada vez mais o interior e a capital, precisava ser combatida de maneira drástica. Para desespero da oposição, após o autogolpe a popularidade do presidente saltou para 70%.
Para atingir a meta de acabar com a guerrilha, foi feita uma aliança implícita entre Fujimori e as Forças Armadas do Peru. Em setembro de 1992 o líder do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán, foi capturado e com isso, deu-se inicio ao processo de controle à violência social.

Blue Eyed

Vídeo

 

Sinopse: O documentário aborda o trabalho da educadora americana Jane Elliot, realizado em salas de aula para crianças, em 1968 e, posteriormente, na década de 90, em workshops realizados para adultos. Jane desenvolveu com crianças e adultos uma atividade de conscientização: fazer com que crianças e adultos brancos, por um dia, se sentissem discriminados como negros.

Gênero: Documentário
Direção: Bertram Verhaag
Roteiro: Bertram Verhaag
Crédito do Elenco: Jane Elliott
Origem/Ano: EUA / 1996
Duração: 90 min

 

Huancayo – fotos nunca traduzirão a beleza de existir

Padrão

    A passagem comprada no dia anterior era a materialização da nossa ansiedade para viajar de trem. O trajeto Lima-Huancayo é famoso, mais que pelas belas paisagens, por ser obra-prima da engenharia: vencendo a Cordilheira dos Andes, essa rota existe desde 1908 e por quase um século o Ferrocarril Central levou a etiqueta de trem mais alto do mundo – agora perde para um no Tibet, inaugurado em 2006; também pudera: partimos do nível do mar para chegar ao túnel Galera, que está a uma altitude de 4.781 metros de altura!
“Renata, RENATA! Acorda, acorda… puta que pariu, são 6h40! Vamos perder o trem! Perdemos o trem…!”. O táxi nos cobrou uma fortuna até a Estação dos Desamparados, de onde sairia o Ferrocarril Central. Um funcionário, de dentro do portão, gritou: “¡El tren ya salió, chicas! Hay que ir hasta la Estación de Chosica. ¡Apúrense!”Até descobrir que raios era Chosica, passamos uns 20 minutos de puro desespero. No final das contas, tomamos um táxi comunitário que iria até lá. Enquanto pensava com meus botões como seria triste voltar pra Lima, o trem passou por nós. Como era mais lento que qualquer carro, significava que chegaríamos a tempo à outra estação. Foi uma sensação peculiar, parecida com uma perseguição de desenho animado a lá “Motorista, siga aquele trem!”.
Chegamos enfim à Chosica, cidade acolhedora com um intenso comércio de tudo que se possa imaginar. Já na estação e com algumas pessoas mais, ouvimos o barulhinho do trem. Hora de um suspiro aliviado, hora do embarque. Havíamos comprado o bilhete mais econômico e subimos justo pelo lado mais chique do trem; a ferro-moça foi nos levando até a outra extremidade: passa acentos chiques, passa cozinha, passa maquinaria… Sim, éramos como o Jack transitando da primeira até a terceira classe do Titanic.
Começa a viagem. O vagão balança forte. O azul grita no céu. Foram doze horas encantadoras. Não me canso de celebrar a paisagem andina.
Não vou contar todo o pai-nosso entre a chegada à cidade de Huancayo e a ida ao Nevado de Huaytapallana. Eu já tinha passado uns bons apuros em Huaraz meses antes com a equação “caminhadas na altitude + montanhas de neve = morte”, mas não resisti à ideia de ver neve de pertinho. Já sabia como era cansativo subir tão alto em tão pouco tempo – praticamente 3h30 andando, partindo de quase 4 mil metros para mais de 5 mil metros de altitude – e preparei minha água, chocolates, bolachinhas, protetor solar e muita disposição. Não é exagero dizer que caminhava quatro passos e descansava dez minutos, caminhava mais quatro passos e parava de novo! Lembrei da clássica frase que a minha avó sempre dizia ao me ver: “Aiiiii fia, essa semana quase morri!” Éramos um grupo de vinte pessoas e não preciso dizer que sempre estava com os retardatários. A paisagem era deslumbrante.
No meio do caminho paramos para fazer o ritual. O ritual consistia em tomar um gole de uma bebida alcoólica parecida com a nossa pinga (que agora não lembro o nome), depois jogar em um circulo de pedras a folha de coca mais bonita que cada um tivesse nas mãos; deveríamos jogar ali também uma massa de folhas de coca mascadas, além de dinheiro, comida, cartões profissionais, e essa sorte de coisas simbólicas que atraíssem coisas boas para nossas vidas. Depois dizíamos algo para que o Deus do Nevado Huaytapallana protegesse nosso caminho até a montanha.
Tínhamos mais umas duas horas de caminhada pela frente. Cheguei ao pé do nevado morta e não tive fôlego para subir até a parte de neve. Imaginava balõezinhos com pessoas me dizendo: “Flávia, sua pata!” (Mas me defendo recorrendo a clichês: é preciso reconhecer as limitações do corpo). Sentei-me extasiada ante aquela beleza branca e gelada. Ouvia as pessoas brincando na neve. Invejinha. Sentada ali, em catarse, lembrava de algo que me chocou muito; segundo nosso guia, o Huaytapallana tem data de morte já declarada: não “viverá” mais que cinco anos…
O caminho de volta foi bem mais tranquilo. Bem, digamos que foi tranquilo até certa parte do percurso. De repente, mais que de repente começou uma neblina surreal. O guia tinha ficado para trás com umas pessoas que estavam passando mal. Estávamos em dez mais ou menos, todos desorientados (vulgo muito perdidos) em meio à falta de visibilidade. Na minha cabeça passava coisas entreguistas como: a) alguém aqui deve saber acender uma fogueira; b) devemos nos juntar a noite pra nos aquecer e não morrer de frio, como no filme “Marcha dos Pinguins”; c) pensava na manchete: “Duas brasileiras morrem no Peru, depois de uma caminhada ao Nevado de Huaytapallana”. Literalmente vimos uma luz no fim do túnel: gritamos emocionados. O guia chegou à cabana junto com o outro grupo uma hora depois. O alívio foi completo. Todos sãos e salvos. Bem, todos sãos é exagero (rs).
No dia seguinte, fomos visitar uma formação rochosa ao rededor de Huancayo chamada Torre Torre (por seu formato “cumpridão”). Conosco estava um casal de biólogos simpaticíssimos que havíamos conhecido no dia anterior. Nos divertimos muito tirando fotos. Passeamos por ali, apreciando a vista incrível da cidade e as cores da Serra. Passamos por uma igrejinha um tanto quanto macabra por ali perto: em uma de suas paredes exteriores tinha desenhado uma caveira dessas de pirata, ao lado de uma pintura de Jesus Cristo pregado na cruz. Nesse mesmo parque, uma chola – chamam-se cholas as mulheres Andinas – gravava um vídeo-clipe (desses muito bregas que morro de rir quanto passa num restaurante qualquer daqui). Comemos maravilhosamente bem em um restaurante no centro da cidade (os peruanos comeram aquele bichinho fofo que é o cuy!). À noite, juntamo-nos com uma amiga do casal e fomos ao Parque Identidade, que é todo construído de pedras. Fechamos a viagem com chave de ouro tomando o drink típico de Huancayo: naranjita (bebida quente de suco de laranja, mel e pisco).

Fiesta de Quinceañera

Padrão

“Sabem que tenho uma festa de 15 anos para ir final de semana? O melhor é que todos os meus amigos também estão convidados…”. “O quêêêêê?!?!?!”. A priori, claro, ninguém pensava em ir à festa da sobrinha da mulher que está recebendo nosso amigo mexicano em sua casa (durante a instância dele em Lima). Bem, não é da boa educação que um zilhão de pessoas que nunca viram a fuça da aniversariante apareçam em sua festa de quinze anos sem mais nem menos. De qualquer forma, alguns resolveram que iriam já na metade da semana, outros confirmaram quase de última hora. No final das contas, éramos cinco mexicanos, duas brasileiras, duas francesas e uma uruguaia.
Chegamos por volta das onze da noite e não havia quase ninguém. Ou seja: já estávamos envergonhados de sermos tantos e ainda chegamos primeiro…! Aos poucos os convidados foram entrando, fomos ficando um pouco mais à vontade e o apresentador começa a falar. Sim, minha gente querida, a festa contava com um apresentador análogo àqueles que animam festas de rua de interior ou shows-brega.
Aliás, “brega” é um adjetivo que descreve muito bem a festa – no geral, imaginem que uma quinceañera seja como a equivalente brasileira. Na verdade, sempre achei festas de 15 anos, casamentos e afins rituais muito bregas, mas no Peru creio que é algo muito mais acentuado, quase caricatural. Essa breguice da fiesta de quinceañera, aliás, me faz lembrar que enquanto estive viajando pelo Norte do país, reparei que algumas peruanas eram breguíssimas – uma usava um abrigo inteiro rosa choque e todos os acessórios da mesma cor. Durante o evento, observava o grupo de adolescentes amigos da aniversariante: todos arrumadinhos “de festa”, eufóricos, falantes, passando de um lado pra outro para desfilar a roupa nova para os convidados. Estando no ápice do desengonçamento e o mau-gosto próprio dos adolescentes, nem preciso dizer como, sobretudo as meninas, estavam bregas. Dispensa comentários, vide fotos.
Meia noite em ponto. O apresentador pede que as luzes sejam apagadas. Formam-se duas filas – iguais às de dança junina – em que de um lado ficam as meninas e do outro ficam os meninos, amigos de Lesly. Cada um tem uma vela acesa e uma flor. A aniversariante desce as escadas – baixo narração emocionada à la Galvão Bueno do apresentador – vai apagando vela por vela e juntando as flores em um buquê. Chega a hora da dança: a menina dança com seu pai, com seus avós, tios, primos, amigos, amigados, amigos dos amigos… e depois de uma sorte de falas como “Essa que é a noite mais importante da vida de Lesly!”, “Todos estão emocionados nesse linda noite!”,… começam-se os discursos; e por mais clichê que fosse, a fala da mãe da menina deixou todos com os olhos marejados, reconheço. Depois seriam escolhidos os “melhores amigos” da quinceañera: os amigos homens se juntavam para tentar pegar o buquê que ela jogaria para o alto – assim mesmo: como fazem nos casamentos só que ao contrário -; já as amigas deveriam escolher, dentre várias cordinhas imersas em um líquido azul claro, a que continha o anel de prata da aniversariante.
A festa propriamente dita –vulgo aguardada – começa depois com as comidas, bebidas e com a música. Claro que não podia faltar o Pisco Sour (bebida típica preparada com Pisco, limão e clara de ovo), frango – quem vem ao Peru sabe que pollo é o Peru e o Peru é o pollo – salsa e cumbia. Os convidados então se sentem à vontade para ocupar o salão de dança. De repente dois animadores aparecem no meio da pista e uma música muito animada começa a tocar; até Ilariê da Xuxa em versão espanhola teve! Sem contar que um senhorzinho me tirou pra dançar e depois de tentar explicar mil vezes que não sabia, tive que ir… Divertidíssimo.
Experiência impagável, no dúbio sentido do termo.

Como não levei máquina fotográfica, roubei essas fotos dos meus amigos.